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“Inflação pode cair, mas custo do dinheiro pode subir”, avalia analista

O Bitcoin opera próximo de US$ 74 mil nesta quinta-feira (16), em um ambiente de cautela e expectativas mistas. Nas últimas semanas, o mercado começou a precificar um cenário de possível alívio monetário, impulsionado pela expectativa de que o avanço da inteligência artificial possa aumentar a produtividade, reduzir pressões de custos e, consequentemente, baixar a inflação.

No entanto, para o operador de mercado Tiago Martins, essa leitura pode estar incompleta e conter um risco importante de desalinhamento. “A inflação pode cair, mas o custo real do dinheiro pode aumentar”, afirma Martins. Ele explica que o avanço tecnológico, embora possa gerar mais eficiência e menor pressão inflacionária, também acelera o crescimento econômico.

Isso aumenta a demanda por capital, pois empresas investem mais, projetos se expandem e o sistema precisa de mais recursos para sustentar a atividade. Quando a demanda por crédito cresce, o preço do dinheiro tende a subir. Mesmo que a inflação esteja sob controle.

Futuro dos juros e da inflação

O debate ganhou força recentemente com a possibilidade de mudança no comando do Federal Reserve. Com a saída de Jerome Powell e a possível entrada de Kevin Warsh, o mercado começou a testar a ideia de que juros mais baixos poderiam vir em breve. Martins observa que essa narrativa parte de uma premissa correta (tecnologia reduzindo custos), mas ignora o efeito colateral: uma economia mais forte exige mais capital, o que pode tornar o dinheiro mais caro.

Um dos principais termômetros desse cenário é o rendimento dos Treasuries de 10 anos (US 10-Year Treasury Yield). Os juros de longo prazo refletem as expectativas estruturais da economia.

Até o momento, eles ainda não confirmam o movimento de alívio que o mercado parece estar precificando. “Existe um desalinhamento entre o que o mercado espera e o que o sistema pode estar precificando”, diz o operador.

E o Bitcoin?

Essa divergência já aparece no comportamento dos ativos de risco. O Bitcoin voltou a subir, mas o movimento ocorre de forma lenta, com perda de volume e dentro de uma estrutura de canal. “Isso não é típico de início de tendência forte. É mais compatível com um movimento corretivo”, avalia Martins.

O preço agora se aproxima de uma região crítica na faixa dos US$ 76 mil — nível onde o mercado já falhou anteriormente. Uma rejeição nessa zona pode repetir o padrão, enquanto um rompimento apontaria para a região entre US$ 80 mil e US$ 85 mil.

No entanto, Martins alerta que mesmo uma alta até essa faixa ainda poderia representar exaustão, e não necessariamente o início de um novo ciclo altista.

Liquidez real vs alívio monetário

O ponto central, segundo o analista, não está na direção imediata do preço, mas no que está sustentando o movimento. Se a alta do Bitcoin estiver baseada apenas na expectativa de alívio monetário, e não em liquidez real, o risco estrutural permanece.

“O mercado reage à ideia, não à realidade”, resume.Martins compara o momento atual com períodos anteriores em que o mercado precificou cenários otimistas que depois não se confirmaram.

Ele lembra que o fim do Quantitative Tightening (QT) no final de 2025 foi interpretado como início de um ciclo de expansão de liquidez. Mas a manutenção de juros elevados e a possibilidade de novas altas mudaram o quadro. “O sistema não está mais perdendo liquidez de forma ativa, mas continua operando com dinheiro caro. E possivelmente mais caro ainda”, afirma.

Menos candle, mais sustentação do movimento

Nesse contexto, a pergunta deixa de ser sobre o próximo candle e passa a ser sobre a sustentação do movimento. “Não é a narrativa que define o mercado. É a liquidez”, conclui Tiago Martins.

Enquanto o Federal Reserve mantém o tom ambíguo e o avanço da IA gera otimismo sobre produtividade, o mercado testa uma narrativa de alívio que ainda não foi confirmada pelos indicadores estruturais. O Bitcoin, como ativo mais sensível à liquidez global, continua no centro dessa tensão entre expectativa e realidade.

Para investidores, o momento exige atenção não apenas ao preço, mas ao contexto macro que pode determinar se o atual movimento de alta tem força para se sustentar ou se trata apenas de uma correção dentro de um ambiente ainda restritivo.