O Bitcoin negocia acima de US$ 70 mil nesta quinta-feira (9), mas em um ambiente de cautela. Embora as tensões diretas entre Estados Unidos e Irã tenham diminuído após a trégua anunciada nas últimas semanas, o operador de mercado Tiago Martins afirma que o impacto econômico do conflito no Oriente Médio não desapareceu.
“O mercado reage ao evento, mas o sistema reage ao impacto. E o impacto não some quando o conflito diminui”, explica. Durante o pico das tensões, o foco ficou no risco de interrupção no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Consequências dos conflitos
O preço do barril subiu rapidamente, pressionando os custos de transporte, produção e alimentos. Mesmo com a recente correção do petróleo, Martins observa que esse aumento de custo já foi incorporado à economia real. “O sistema não volta ao ponto anterior”, diz ele.
O cenário que começa a se formar, segundo o analista, lembra um velho problema. A estagflação, que é a combinação de inflação persistente com menor capacidade de crescimento. Custos mais altos reduzem o poder de consumo, enquanto a inflação impede que os bancos centrais cortem juros com facilidade.
“O sistema fica mais caro, mas não necessariamente mais forte”, resume Martins.Um dos sinais mais claros vem do mercado de commodities agrícolas. O Invesco DB Agriculture Fund opera em níveis elevados desde 2024. Durante o aumento das tensões, o preço subiu, mas sem aumento proporcional de volume.
Isso indica menor participação de compradores. Agora, o fundo oscila dentro de um intervalo definido. “Se o preço voltar a subir, o impacto será direto no custo de vida. Se cair, pode mostrar que o consumo já não sustenta esses níveis”, analisa o operador.
Oriente Médio e Bitcoin
Essa dinâmica também aparece nos ativos de risco. O Bitcoin reagiu positivamente ao anúncio da trégua, mas ainda não conseguiu sustentar o movimento de alta. O preço encontra resistência na região dos US$ 72 mil, com um teste mais relevante na faixa dos US$ 76 mil.
Do lado negativo, uma perda da região dos US$ 66 mil poderia abrir espaço para queda até US$ 62 mil a US$ 60 mil. “Mais importante que a direção imediata é o contexto em que o mercado se move”, destaca Martins.
Diferente de outros momentos, o que se observa agora é a convergência de vários fatores ao mesmo tempo: pressão energética, alimentos em patamares elevados e ativos de risco com dificuldade de continuidade. “Não é um evento isolado. É uma sequência”, afirma o operador.
O pano de fundo macro também contribui para essa leitura. O Federal Reserve mantém os juros elevados e a comunicação recente não trouxe clareza sobre cortes futuros. O fim do Quantitative Tightening (QT) no final de 2025 foi comemorado como alívio, mas a manutenção de juros altos e a possibilidade de novas altas ainda estão sobre a mesa.
“O sistema não está mais perdendo liquidez de forma ativa, mas continua operando com dinheiro caro”, explica Martins. Nesse ambiente, o Bitcoin, como ativo mais sensível à liquidez global, já demonstra fragilidade técnica.
Após cair dos US$ 126 mil para a região dos US$ 80 mil, o ativo mostra recuperações com volume decrescente, característica de bandeiras de baixa. No gráfico mensal, acumula vários meses de pressão, e o RSI ainda não sinaliza um fundo global consolidado.
Sinais de 2008
Martins compara o momento atual com o período que antecedeu a crise de 2008. Não foi o colapso que definiu o cenário, mas a mudança gradual de comportamento dos ativos. “Hoje, alguns desses sinais começam a aparecer novamente”, diz ele.
O petróleo subindo, o ouro corrigindo e o mercado de ações perdendo força formam uma sequência que merece atenção. Para o investidor, a pergunta central muda. Não se trata mais apenas de prever o próximo movimento do preço, mas de entender o novo ambiente em que o mercado opera.
“O conflito pode ter diminuído, mas os efeitos já foram incorporados ao sistema. O custo aumentou. E agora o mercado começa a reagir a esse novo nível de pressão”, conclui Tiago Martins.
Enquanto o Bitcoin busca sustentação técnica, o foco do mercado deve permanecer no impacto macro de longo prazo. Em momentos como esse, o tempo e a paciência costumam ser tão importantes quanto a direção do preço.





