O Bitcoin opera em torno de US$ 66 mil nesta segunda-feira, consolidando após uma semana volátil marcada por tensões geopolíticas no Oriente Médio e uma queda de cerca de 10% nos últimos dias. Mas, para o operador de mercado Tiago Martins, o foco não deve se limitar ao preço imediato. Além disso, um dólar lateralizado pode indicar que o fundo ainda não chegou.
Martins alerta para um “risco silencioso” que se constrói nos bastidores. A suspensão temporária de saques em um fundo ligado à BlackRock, o dólar americano preso em lateralização há dois anos e uma cadeia de efeitos macro que pode transformar uma correção técnica em um movimento estrutural de reprecificação de ativos de risco.
O gatilho imediato veio na semana passada, quando o fundo de liquidez digital BUIDL, gerido pela BlackRock e tokenizado em Treasuries americanos, travou resgates de investidores.
“Medidas como essa não são comuns. Elas surgem quando há pressão de resgate acima do esperado ou deterioração da liquidez do ativo subjacente”, explica Martins.
História não se repete, mas rima
Historicamente, episódios semelhantes não são isolados: eles aparecem como sinais iniciais de estresse sistêmico, como antes da crise financeira de 2008, quando fundos semelhantes começaram a congelar saques para evitar corridas bancárias.
Embora o BUIDL tenha retomado operações, o incidente levanta bandeiras vermelhas. “Não é crise iminente, mas um sintoma de algo maior se formando no sistema financeiro”, diz o analista.O contexto macro amplifica o alerta.
A administração Trump anunciou tarifas gerais de 10% sobre importações (com possibilidade de 15%), efetivas desde 24 de fevereiro, reacendendo temores de inflação implícita.
Com o petróleo Brent subindo mais de 4% devido a ataques mútuos entre Israel e Irã, custos energéticos elevados pressionam cadeias de suprimento globais. “Tarifa é imposto. Encara bens e pressiona cadeias produtivas”, ressalta Martins.
Em um ambiente onde o Federal Reserve (Fed) já é cauteloso após o CPI de janeiro em 2,4% (acima da meta de 2%), qualquer elevação de custos reduz espaço para cortes de juros.
Dólar lateral desanima
Liquidez comedida significa menos combustível para ativos voláteis como o Bitcoin, que historicamente depende de expansão monetária para ciclos de alta. Nesse cenário, o U.S. Dollar Index (DXY) emerge como peça central. “Desde novembro de 2022, o DXY se encontra em uma ampla estrutura lateral”, observa Martins.
Após forte valorização entre 2020 e 2022, impulsionada por juros altos e busca por segurança, o índice agora apresenta sinais de um “spring” no modelo Wyckoff: rompimento momentâneo de suporte para capturar liquidez antes de uma nova perna de alta.
No gráfico mensal, isso sugere que o dólar pode iniciar um ciclo de força relativa. “Quando o dólar sobe, a liquidez aperta”, explica o operador. O dólar continua sendo reserva global e moeda de financiamento internacional; sua valorização reflete fuga para segurança, como visto em 2008 ou durante a pandemia.
Fluxos de capital já migram: ouro e prata registram altas expressivas, com ouro acima de US$ 2.200 por onça e prata em US$ 25. “Parte da busca por proteção pode já estar em andamento”, diz Martins.
Para investidores, a pergunta evolui: não é só “onde vai o preço?”, mas “o ambiente macro permitirá sustentação?”. Em ciclos complexos, o tempo é decisivo na formação de contraparte para acumulação. “Fundo não é preço. É processo”, resume Martins.





